VANDERLEI LOPES – ESPELHO

OLHAR ATRAVÉS DOS ESPELHOS

Os trabalhos de Vanderlei Lopes desconcertam olhares acostumados a somente confirmar certezas. Em aproximação ligeira, é possível classificá-los como esculturas cujos significados não cabem nelas mesmas, emergindo, ao contrário, do contato de cada uma com as demais e de todas com seu entorno. Objetos construídos que ocupam o ambiente partilhado com os observadores e que de algum modo mudam a natureza daquele – tornando-o mais do que um espaço de abrigo neutro para as peças ali dispostas – e afetam estes outros – convidando-os a construir, por si mesmos, os possíveis sentidos que os trabalhos embutem. Há nesses objetos, contudo, uma sugestão narrativa que, mesmo se com frequência fragmentada ou interrompida, lhes confere uma característica mais própria de um texto ou de um filme. Ou ainda de uma pintura. Fora do alcance de definições precisas, os trabalhos reunidos nesta exposição desafiam maneiras acomodadas de enxergar o que se passa em revista o tempo inteiro, oferecendo a possibilidade de se elaborar um pensamento que articule imagens, sensações e ideias de modo novo.

Talvez o primeiro aspecto que chame a atenção de quem se depara com os trabalhos de Vanderlei Lopes na exposição Espelho seja a familiaridade das formas apresentadas como objetos construídos: tecidos pendurados na parede, folhas amassadas de um caderno, mãos que protegem a chama de uma vela, um par de sapatos posto sobre o piso, entre outras marcas ou cenas de um cotidiano ordinário. Esse reconhecimento inicial é logo sabotado, porém, pela percepção de que tais formas, tão conhecidas quanto díspares, são quase todas fundidas em bronze, depois polido ou pintado. Por meio desse embate ou confusão entre forma e matéria, o artista provoca um descompasso entre o que se recorda e o que se olha, entre a memória das coisas comuns e sua reapresentação como objetos inventados. Abre um intervalo entre o que já se sabia e algo que está ainda para ser ponderado, instaurando uma brecha cognitiva que pode – e essa é uma aposta sem ganho assegurado – fazer ver algo no que antes se enxergava pouco ou nada.

É através dessa fissura nas convenções do olhar que pedaços de histórias inscritas nas peças podem, talvez, ser contados, impactando de maneiras diversas em cada pessoa que se aproxime delas. Histórias que, a depender de lembranças individuais, podem remeter à vida da cidade ou do país onde se vive e também ao campo da intimidade. Um tecido cujos vincos e marcas de dobras não podem ser desfeitos pode sugerir imobilidade mas também

firmeza, assim como sapatos cujo interiores são acesos por brilho alaranjado intenso podem parecer a alguns a representação do prosaico e em outros ativar memórias da ordem do sublime. Tal como a chama de uma vela feita de bronze reluzente confunde a força de geração autônoma de luz com algo que somente reflete aquilo que lhe incide de outra fonte. Em todos esses casos, e em outros a serem descobertos por cada um que se aproxime dos trabalhos de modo interessado, põe-se em marcha um jogo especular entre os objetos expostos e expectativas de apreendê-los de modo inteiro. Expectativas que usualmente são, entretanto, frustradas.

Se a frustração é comumente tida como índice de fracasso de um intento ou da irrealização de algo desejado, na obra de Vanderlei Lopes ela é sintoma da impossibilidade humana de abarcar, no âmbito do sensível, a complexidade do que é vivido. A matéria dura e por vezes ofuscante de seus objetos os torna ao mesmo tempo mais concretos e mais etéreos, mais próximos e mais distantes de um real inapreensível, mas que ainda assim precisa ser representado. Se não por nada, para tentar-se compreender o lugar que se habita – seja para mudá-lo ou mesmo para mantê-lo inalterado. Sua poética é da ordem, portanto, da impossibilidade de criar equivalências sensíveis do real. Ou da exaustiva tentativa de refazer as coisas comuns do mundo de maneira distinta da habitual, ativando assim o conhecimento mudo que todas elas segredam. Tentativa de refazê-las despidas das imperfeições e fragilidades dos seus referentes ordinários somente para oferecê-las, de modo sedutor e ambíguo, como imagens invertidas de um mundo em desmanche – espelho ao mesmo tempo reluzente e opaco. São trabalhos que resistem à redução discursiva mas que ainda assim a provocam; que encantam e enganam, contando algo que logo sonegam. Trabalhos que, por isso, esboçam pedagogia crítica para olhar outra vez o mundo, na qual se desaprende o que era acordado e se refazem ligações entre forma, matéria e significado. Pedagogia própria para um tempo em suspensão que requer de todos imaginação criativa. Que requer a disposição de olhar através de espelhos, em busca menos de confirmações do que de incertezas.

Moacir dos Anjos

Terça a sexta: 10 às 19h
Sábado: 11 às 17h

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