Sem Título Algum | Adolfo Montejo, Lula Wanderley e Paulo Bruscky

Sem Título Algum – Cartografia afetiva, Poética e Intempestiva

Começar com o tema da amizade se revelou ser o melhor caminho a percorrer para apresentar Sem Título Algum, mostra expositiva ocorrida na Amparo 60 Galeria, que reuniu pela primeira vez três amigos/artistas — genuínos fazedores de poesias —, Adolfo Montejo Navas, Lula Wanderley e Paulo Bruscky.

Um dos fios que teceu a trama da exposição recaiu sobre a vontade dos artistas de criar um “lugar” que potencializasse o encontro, as poéticas cúmplices e celebrasse a amizade. Nesse aspecto, além do sentido usual do termo, considerei que falar de amizade é falar de multiplicidade, intensidade, experimentação, desterritorialização. A amizade vista dessa maneira esgarça o tecido liso e naturalizado da noção de relação e estende-se para significados que constroem agenciamentos e criam intercessores. O essencial são os intercessores. A criação são os intercessores. Sem eles não há obra. Podem ser pessoas — para um filósofo, artistas ou cientistas; para um cientista, filósofos ou artistas […] é preciso fabricar seus próprios intercessores (Conversações, G. Deleuze).

O que construíram os três artistas? Um agenciamento que poduziu poéticas e narrativas visuais marcadas por singularidades e complexidades, tensões, justaposições, unidades, identidades, proximidades e distâncias. Todas resultantes de intimidades constituídas ao longo de muitos anos de amizade e, sobremaneira, potencializadas pelas conversas trocadas por inúmeros e-mails ao longo dos meses que anteciparam a realização da mostra. Constituiu-se, dessa maneira, uma rede com muitos interlocutores cuja ausência de hierarquias — curador, mentor, sensor — horizontalizou as relações e instigou o acontecimento.

O desenho da mostra se esboçava. Lula Wanderley, afetivamente envolvido — com sua poética refinada, sofisticada, limpa e potente — contava, a partir de outra geografia, dos trabalhos feitos, instigava, mapeava e inscrevia o acontecimento. Imaginava o espaço, desenhava de longe a montagem, produzia conceitos; apostava na trama, na aventura, nas incertezas, na poesia como forma ampliada, expandida, matriz de poéticas e criadoras de mundo, no sentido originário da poièsis. A arte de Lula Wanderley é radical. Do Bem Dentro (2011) — trabalho que guarda uma sutileza na forma e na retórica, beleza do texto visual, que intriga o espectador, instiga o passante a ousar descascar as camadas do que está velado; passando pelo livro Retratos, narrativas dedicadas aos seus intercessores eleitos, aos Objetos Retratos — Obra Líquida, Adolfo X Adolfo e Passante — deliciosamente bem-humorados —, feitos respectivamente em homenagem aos amigos Bruscky, Montejo Navas e seu autorretrato.

Adolfo Montejo, de outro ponto do País, juntava, justapunha, abria diálogos entre os trabalhos de Bruscky, Lula e os seus. Revelava-se conhecedor dos percursos poéticos de seus pares. Bulia em seus trabalhos. O artista produziu séries de poemas visuais, objetos artísticos ricos pela sua contundência poética e política — como bombas de artifício, contundentes e belas —, trouxe livros de artistas, jogos poéticos, entre muitos trabalhos desconhecidos por interessados em arte. O silêncio de seus cadeados suspensos sobre o batente de uma porta olhava ao longe o silêncio de um pênalti, vídeo-poesia de Lula Wanderley. Ambos os trabalhos edificavam, conjuntamente, balizas que marcavam os limítrofes de uma cartografia que se assemelhava a um campo de força, cujas inusitadas narrativas poéticas posicionavam-se entre esses dois pontos. Ressonâncias?

Entre as balizas do silêncio, encontrava-se a obra Antologia Poética — série de poemas visuais feitos por meio da apropriação de cédulas monetárias, cuja re-união justificava-se pela recorrente presença nessas, de imagens de poetas de diversos países. Propositalmente, Antologia Poética acompanhou a obra de Bruscky Leilão de Deus (2012), emitindo crítica ácida ao mercado da fé, ambas, sutileza e ironia, simplicidade e complexidade. Não posso me furtar a mencionar o belíssimo trabalho de Montejo Navas, O Sonhador (2012), que capturou meu olhar pela junção de materiais, poética e possibilidade de fazer pensar/sentir com o corpo todo na dimensão do demasiadamente humano. Uma garrafa de vidro transparente, dentro algodão branco. Na beira da boca da garrafa, uma miniatura de figura humana masculina sentada à beira do abismo, suas pernas cruzadas, à espera.

Também Bruscky — instigado pelas lembranças compartilhadas com Lula no Recife nos anos 1970 e depois em muitos encontros reais e virtuais entre o Rio de Janeiro e o Recife, e com Adolfo, cuja interlocução e cumplicidade já data de anos — produziu dois retratos, rendendo-lhes uma homenagem afetuosa e certamente bem-humorada, com a obra Farmácia 2012. Uma instalação composta por trabalhos novos e antigos, que, como todo retrato, desenhava uma narrativa íntima dos dois amigos. Com a mesma sensibilidade, Paulo Bruscky também homenageia os amigos/artistas em seu texto/obra EULULADOLFO, impresso neste catálogo. A Lula, ele devolve simbolicamente um cartaz desenhado por este na década de 1970. A Adolfo, Bruscky presenteia com uma foto do trabalho Cozinha, obra de Montejo Navas, feita por Bruscky em 2004 em uma de suas muitas visitas à casa do amigo.

Sem Título Algum produziu ruídos poéticos provocativos causados tanto ao meio da arte quanto ao espaço que lhe acolheu, constituindo outro lugar de práticas e experimentações estéticas. Ausências de títulos, de autorias, de espaços demarcados por uma museografia protocolar, provocando nos visitantes o desejo de trilhar e de produzir sua própria escrita. Isso tudo edificou índices reveladores de produções de novos sentidos e estreitou os laços de afetividade e de uma amizade proclamada.


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