José Rufino na Casa França Brasil

A Casa França Brasil abre na próxima sexta dia 24, no Rio de Janeiro a exposição do artista José Rufino, onde será apresentada a obra Ulysses (imagem). A exposição fica em cartaz até  17 de fevereiro de 2013.


Onde:
Casa França Brasil
Rua Visconde de Itaboraí, 78 – Centro – Rio de Janeiro
Tel.: (21) 2332-5120

 

Tramando Mundos | Luiz Hermano

A exposição de Luiz Hermano “Tramando Mundos” apresenta o interesse cosmológico do artista em obras feitas entre 1980 e 2011. Formar mundos e meditar sobre a matemática do universo são interesses que unem todas as obras, desde as aquarelas com temas míticos às mais recentes grades geométricas. Como se colocasse em jogo tentativas de compreensão da origem e possibilidades de conexão com o universo, Hermano busca em várias culturas as estruturas para suas composições intrincadas, tecidas pela mão que vai pensando as tramas, enquanto a mente se esvazia da banalidade do cotidiano. A mão se move rápida e pensa com contas de plástico, capacitores eletrônicos, tubos de alumínio…

Religião, consumismo e tecnologia estão trançados nos fios de arame de Hermano. Na Tailândia, na India, na China, o artista encontrou estátuas de budas em construções milenares, erguidas segundo a geometria sagrada e se encantou com mandalas que esquematizam o universo. Mas também passeou pelas ruas de comércio de quinquilharias de plástico, de brinquedos piratas, de computadores de procedência duvidosa. O sagrado é aqui enovelado com o profano, pois o artista não pretende escapar do mundo cotidiano, mas achar nele mesmo a transcendência.

Luiz Hermano medita enquanto faz suas obras. Ele entra em um estado mental similar ao da criança brincando, e enquanto sincroniza o movimento de suas mãos com a frequência de suas ondas cerebrais, ergue uma área onde a ilusão de ser um com o universo se integra com a consciência de ser separado desse universo. Nas tramas criadas por Luiz Hermano, a ilusão de estar em controle e ser capaz de mapear o mundo construindo objetos coexiste em paz com a frustração de ser um ente de duração finita em um universo que existe em um tempo infinito.

Luiz Hermano nasceu em Preaoca, Ceará, e nos últimos 30 anos teve seus trabalhos apresentados nas principais instituições de arte do Brasil, como Pinacoteca do Estado de São Paulo, Instituto Tomie Ohtake, Centro Dragão do Mar, Museu de Arte Moderna de São Paulo e Rio de Janeiro, MAC-USP, MASP,  além de participar da Bienal de São Paulo em 1987 e 1991, e da Bienal de Curitiba em 2009.

Texto: Paula Braga

 

Exposição “Para Nunca Mais Me Esquecer” de José Paulo entre as melhores exposições do Rio de Janeiro.

A Veja Rio, ou vejinha, que acompanha o exemplar semanal da revista em terras fluminenses, trouxe na última semana o ranking com as melhores exposições em cartaz na cidade.

Entre as 10 está a exposição “Para Nunca Mais Me Esquecer” de José Paulo, artista Pernambucano que explora questões como memória, rotulação e permanência. A exposição que conta com a Curadoria de Marcelo  Campos fica até o dia 5 de Agosto de terça a domingo no Paço Imperial, na Praça XV centro do Rio de Janeiro.

Além da mostra individual está no ranking também a exposição “Espelho Refletido” que conta com a participação de José Paulo, José Rufino e Rodrigo Braga, integrantes do casting da Amparo 60, esta segue em exposição até o dia 29 de julho no Centro Cultural Hélio Oticica, Rua Luís de Camões, 68 centro do Rio, de terça a sexta.

vejinha

Individual Rodolfo Mesquita

Certa inabilidade, e as invenções que dela decorrem, atravessam a obra de Rodolfo Mesquita. Qualquer coisa que se pareça com o voluntarismo atribuído ao “estilo” – com suas escolhas repletas de singularidade autoral – é, em verdade, invenção compulsória: o artista não sabe fazer de outro modo e está, assim, obrigado a ser como nos aparece. Nesse sentido, quando Rodolfo afirma sua inabilidade formal e seu não virtuosismo técnico, devemos entender que não se trata de uma”dificuldade em afirmar-se” como artista, mas, antes, de uma incomum disposição em enfrentar a difícil afirmação de uma subjetividade compulsoriamente alienada: nós não sabemos o que fazemos. Assim, uma visão política da história, da economia e do sujeito se presentifica em seu modo de entender e fazer arte: “Nós não somos mestres do que produzimos. O que produzimos se impôs a nós. Alguém que parte do nada, que tem consciência de que a verdadeira intuição artística deve sair do nada. (…) Desenhar só o que não sei. Rude prova de existência como quem diz ‘foi sem saber’”.

 

O que, na obra de Rodolfo Mesquita, poderia parecer um vago marxismo, recoloca-se, portanto, em precisa crítica política. O projeto doutrinário e voluntarista de quase todo o pensamento revolucionário de esquerda é secamente posto em perspectiva por uma obra que, cada vez mais, nada pretende afirmar. O artista responde à frustração generalizada diante “falência” da utopia socialista com um cotidiano trabalho de esvaziamento – ou, tomando de empréstimo um termo deleuziano, de esgotamento – do próprio pensamento utópico. Assim, se até meados dos anos 1990 o trabalho de Mesquita estava às voltas com um esforço de engajamento social, aos poucos a energia é tranposta para outro foco. O desaparecimento dos textos que ofereciam chaves de leitura de caráter habitualmente crítico e social; a paulatina ênfase sobre situações eminentemente corriqueiras (e, portanto, menos narrativas e/ou épicas); o surgimento de personagens menos socialmente demarcados (tantas vezes lidos como “idiotas” mas, fundamentalmente, equivalendo a “qualquer um”); o crescente protagonismo do fundo diante da figura e, com isso, a complexificação da espacialidade na obra do artista, são aspectos que evidenciam essa transformação. De modo geral, o artista esgota seus personagens e narrativas que, assim, diariamente mais socialmente desgarrados, tornam-se cada dia mais políticos.

 

Liberados de “ser alguém” (dessubjetivados, portanto) e habitantes de um espaço não ortodoxo –  ao passo que igualmente não demarcável –, seus personagens performam uma existência que, indisposta com meios e fins, com funções sociais ou vontades narcisísticas, tende a ser pura intensidade: gestos repetidos e sem sentido, olhares destituídos de ponto de fuga, caminhadas para lugar algum, quedas e saltos no vazio, verbalizações mudas – inutilidades que conferem caráter político à inabilidade. Igualmente inaptos, portanto, o artista e sua obra paulatinamente esgotam suas próprias possibilidades e, girando em torno de si mesmos, fundam uma experiência de imanência, de uma continuidade que só se faz porque é, por si, persistente.

 

Compreendendo que “sentir é não ter sensações, assim como pensar é não ter ideias”, a obra de Rodolfo Mesquita tem esgotado os substantivos e adjetivos de outrora para lançar-se a um vazio que, estando evidente na espacialidade em queda de suas obras recentes, está também próximo a Lygia Clark, para quem o “vazio-pleno contém todas as potencialidades. É o ato que lhe dá sentido”[1]. Para o artista, cujos personagens e espaços parecem ter esgotado todas as possibilidades, continuar inventando perdeu seu caráter de escolha e tornou-se ativamente compulsório: “Está em ação, processo em movimento, o verbo é dominante: você está fazendo”.

 

Texto de Clarissa Diniz

 



[1]           Lygia Clark no texto Do Ato (1965). Disponível em http://www.lygiaclark.org.br/arquivo_detPT.asp?idarquivo=18.

Sem Título Algum | Adolfo Montejo, Lula Wanderley e Paulo Bruscky

Sem Título Algum – Cartografia afetiva, Poética e Intempestiva

Começar com o tema da amizade se revelou ser o melhor caminho a percorrer para apresentar Sem Título Algum, mostra expositiva ocorrida na Amparo 60 Galeria, que reuniu pela primeira vez três amigos/artistas — genuínos fazedores de poesias —, Adolfo Montejo Navas, Lula Wanderley e Paulo Bruscky.

Um dos fios que teceu a trama da exposição recaiu sobre a vontade dos artistas de criar um “lugar” que potencializasse o encontro, as poéticas cúmplices e celebrasse a amizade. Nesse aspecto, além do sentido usual do termo, considerei que falar de amizade é falar de multiplicidade, intensidade, experimentação, desterritorialização. A amizade vista dessa maneira esgarça o tecido liso e naturalizado da noção de relação e estende-se para significados que constroem agenciamentos e criam intercessores. O essencial são os intercessores. A criação são os intercessores. Sem eles não há obra. Podem ser pessoas — para um filósofo, artistas ou cientistas; para um cientista, filósofos ou artistas […] é preciso fabricar seus próprios intercessores (Conversações, G. Deleuze).

O que construíram os três artistas? Um agenciamento que poduziu poéticas e narrativas visuais marcadas por singularidades e complexidades, tensões, justaposições, unidades, identidades, proximidades e distâncias. Todas resultantes de intimidades constituídas ao longo de muitos anos de amizade e, sobremaneira, potencializadas pelas conversas trocadas por inúmeros e-mails ao longo dos meses que anteciparam a realização da mostra. Constituiu-se, dessa maneira, uma rede com muitos interlocutores cuja ausência de hierarquias — curador, mentor, sensor — horizontalizou as relações e instigou o acontecimento.

O desenho da mostra se esboçava. Lula Wanderley, afetivamente envolvido — com sua poética refinada, sofisticada, limpa e potente — contava, a partir de outra geografia, dos trabalhos feitos, instigava, mapeava e inscrevia o acontecimento. Imaginava o espaço, desenhava de longe a montagem, produzia conceitos; apostava na trama, na aventura, nas incertezas, na poesia como forma ampliada, expandida, matriz de poéticas e criadoras de mundo, no sentido originário da poièsis. A arte de Lula Wanderley é radical. Do Bem Dentro (2011) — trabalho que guarda uma sutileza na forma e na retórica, beleza do texto visual, que intriga o espectador, instiga o passante a ousar descascar as camadas do que está velado; passando pelo livro Retratos, narrativas dedicadas aos seus intercessores eleitos, aos Objetos Retratos — Obra Líquida, Adolfo X Adolfo e Passante — deliciosamente bem-humorados —, feitos respectivamente em homenagem aos amigos Bruscky, Montejo Navas e seu autorretrato.

Adolfo Montejo, de outro ponto do País, juntava, justapunha, abria diálogos entre os trabalhos de Bruscky, Lula e os seus. Revelava-se conhecedor dos percursos poéticos de seus pares. Bulia em seus trabalhos. O artista produziu séries de poemas visuais, objetos artísticos ricos pela sua contundência poética e política — como bombas de artifício, contundentes e belas —, trouxe livros de artistas, jogos poéticos, entre muitos trabalhos desconhecidos por interessados em arte. O silêncio de seus cadeados suspensos sobre o batente de uma porta olhava ao longe o silêncio de um pênalti, vídeo-poesia de Lula Wanderley. Ambos os trabalhos edificavam, conjuntamente, balizas que marcavam os limítrofes de uma cartografia que se assemelhava a um campo de força, cujas inusitadas narrativas poéticas posicionavam-se entre esses dois pontos. Ressonâncias?

Entre as balizas do silêncio, encontrava-se a obra Antologia Poética — série de poemas visuais feitos por meio da apropriação de cédulas monetárias, cuja re-união justificava-se pela recorrente presença nessas, de imagens de poetas de diversos países. Propositalmente, Antologia Poética acompanhou a obra de Bruscky Leilão de Deus (2012), emitindo crítica ácida ao mercado da fé, ambas, sutileza e ironia, simplicidade e complexidade. Não posso me furtar a mencionar o belíssimo trabalho de Montejo Navas, O Sonhador (2012), que capturou meu olhar pela junção de materiais, poética e possibilidade de fazer pensar/sentir com o corpo todo na dimensão do demasiadamente humano. Uma garrafa de vidro transparente, dentro algodão branco. Na beira da boca da garrafa, uma miniatura de figura humana masculina sentada à beira do abismo, suas pernas cruzadas, à espera.

Também Bruscky — instigado pelas lembranças compartilhadas com Lula no Recife nos anos 1970 e depois em muitos encontros reais e virtuais entre o Rio de Janeiro e o Recife, e com Adolfo, cuja interlocução e cumplicidade já data de anos — produziu dois retratos, rendendo-lhes uma homenagem afetuosa e certamente bem-humorada, com a obra Farmácia 2012. Uma instalação composta por trabalhos novos e antigos, que, como todo retrato, desenhava uma narrativa íntima dos dois amigos. Com a mesma sensibilidade, Paulo Bruscky também homenageia os amigos/artistas em seu texto/obra EULULADOLFO, impresso neste catálogo. A Lula, ele devolve simbolicamente um cartaz desenhado por este na década de 1970. A Adolfo, Bruscky presenteia com uma foto do trabalho Cozinha, obra de Montejo Navas, feita por Bruscky em 2004 em uma de suas muitas visitas à casa do amigo.

Sem Título Algum produziu ruídos poéticos provocativos causados tanto ao meio da arte quanto ao espaço que lhe acolheu, constituindo outro lugar de práticas e experimentações estéticas. Ausências de títulos, de autorias, de espaços demarcados por uma museografia protocolar, provocando nos visitantes o desejo de trilhar e de produzir sua própria escrita. Isso tudo edificou índices reveladores de produções de novos sentidos e estreitou os laços de afetividade e de uma amizade proclamada.


Habitar | Fernando Augusto

̶        Quem sabe, nesta exposição, poderíamos trazer para a galeria um pouco do processo e do ambiente vivenciado no ateliê?

̶        Sim, um pouco das dúvidas, das incertezas, do movimento do fazer. Então, vamos pensar pintura, desenho, imagens em processo, cadernos de anotações, livros de artistas. Lembro-me de que certa vez, olhando meus trabalhos, você me falou para ser mais generoso com o espaço quando eu fosse fazer uma exposição. Acho que você via ali uma possibilidade de trabalhar o espaço expositivo com as obras ativando o espaço, o lugar. Esta mostra na Galeria Amparo 60 é um bom momento para realizarmos essa ideia.

̶        Sim, porque você pensa mais o bidimensional, e eu penso nas relações dos objetos com o espaço.

̶        Quando a galeria me propôs um projeto de exposição, eu pensei, a princípio, na série de pinturas que venho fazendo que se chama Habitar. São pequenas telas a óleo que tratam da questão dos espaços vazios, de cantos e vãos de paredes dentro de casa. São espaços que sempre passam despercebidos, e às vezes neles são colocados móveis que ali ficam por muito tempo e, quando se tiram esses móveis, parece que os lugares guardam uma memória dos objetos ausentes.

̶        O livro de artista que você me mostrou Faça uma frase nesse instante poderia ser o elemento norteador da exposição — aberto ou fechado, com páginas soltas ou coladas nas paredes feito cartazes. Junto a ele, outros livros que levam até essa sua série de pinturas, a fotografias e até mesmo a desenhar na parede da galeria. Isso eu chamo de habitar.

̶        Sim, eu até já fiz um projeto de exposição trabalhando essa ideia: um pequeno quadro na parede e a continuação das formas no espaço, além da moldura. É uma prática de ateliê, muitas vezes vou acrescentando telas ou papéis a uma composição enquanto vou

 

desenhando e, só depois, ao sabor da imagem, é que defino as dimensões do trabalho.

̶        A sua série Pintura sobre pintura, desenvolvida nos anos 1990, tem isto; um processo, uma prática expandida da pintura, camadas, atualizações de pensamentos sobre pensamentos anteriores. Isso acontece de muitas maneiras no trabalho de ateliê e no processo criativo. Às vezes, fazemos coisas que, com o tempo, não gostamos mais, então devemos atualizar esses trabalhos. É covardia continuar convivendo com os trabalhos desatualizados, de que não gostamos mais, somente porque um dia o demos como pronto. Exposição é também pensar o espaço.

̶        Isto é: ativação do espaço. Exposição é também criação. Assim, levar os trabalhos para uma sala expositiva é continuar a criação, a construção do trabalho.

̶        Articular as diferentes obras é parte do processo de trabalho do artista. Essa interlocução — conversa entre artistas sobre os trabalhos e o processo de construção da obra para uma exposição — me interessa muito. Tal como fazíamos quando éramos estudantes de Artes, em workshops, visitas a ateliês, etc. Hoje, perdemos bastante essa prática porque nos tornamos profissionais e ficamos com pudores de opinar no trabalho do outro e também de aceitar opiniões. Esta exposição nos faz retomar isso. Você já visitou várias vezes meu ateliê no Recife e em Gravatá, agora, aproveito este projeto de exposição para visitar o seu, em Vitória, ver seu processo de trabalho, também sua oficina de serigrafia e, quem sabe?, conhecer o espaço cultural do Mosteiro Zen de Ibiraçu.

̶        Combinado…

 

Trecho da conversa entre Fernando Augusto e Marcelo Silveira para tratar da exposição Habitar em São Paulo-SP, em 28/10/2011.

Um Mundo Aqui Dentro | Diego de Santos

A casa da solidão

Quando o silêncio é tão ou mais significativo que as palavras, e o gesto do artista contemplativo sobre suas questões se amplifica na obra como um eco, inundando o universo lírico do branco sincero do papel, instala-se um nervoso estágio de reparo de uma outra consciência que pousa sobre o pensamento.

Um homem transcorre este papel, apenas parte do corpo é visto, porque todo o resto se confunde com a casa, a casa solidão criada por Diego de Santos. É neste arquétipo que o artista transita, explorando todas as possibilidades para ele possíveis.

A casa nos remete para a ideia de abrigo, mas quando a casa não abriga, aprisiona? Que forma de interação com o meio o artista expressa? Aqui, a casa não é um refúgio, nem espaço de fuga. O homem teme essa casa feita de concreto e grades. Contudo, ainda se avista pela janela o azul promessa de felicidade.

Texto: Maira Ortins

Linha Orgânica | Coletiva

De recortes e alianças é feita a Linha Orgânica. Entre uma e outra operação, está o artista. Estão aqui 21 nomes do casting da Amparo 60 e um convidado em torno da observação das continuidades, não exatamente entre arte e vida, mas entre apresentação e representação nos intervalos de liberdade em que o artista opera. Nestes intervalos, na contramão de resiliências e pragmatismos, através de sua obra, o artista codifica, reordena, encapsula. Constrói abrigos para suas posições e poéticas. E, dessa forma, as põe a conviver.

Convivem aqui distintas origens e gerações, aproximadas pelas suposições da mostra. Convivem jovem curadora e galeria que, ao longo de uma década, matiza atividades comerciais e institucionais na cidade, colabora na edificação de um circuito e na contínua busca por formas próprias de produzir e colecionar arte.

O fundamento deste exercício de olhar, desta pequena narrativa sobre o processo de criação, vem de Lygia Clark, que, na década de 1950, no contexto do neoconcretismo, lança o termo “linha orgânica” para designar um espaço entre a tela e a moldura, uma junção de planos até então vistos como antagônicos e impermeáveis. Lygia comenta questões da virada da modernidade ainda caras à arte contemporânea.

Uma delas diz respeito à materialidade da obra, que, de estatuto objetual puro, é tensionada ruma à inscrição no tempo e nas estruturas (molduras) que a comportam. Escapa ao corpo físico e justifica-se, assim, daí por diante, como ideia, ação, evento. Outra questão apostada por Lygia tem a ver com as interfaces que um trabalho artístico cria com o que o circunda, suas bordas. Bordas difusas, passagens sempre possíveis para a interdisciplinaridade e para o vislumbre de que a  arte pode não só desejar, mas fazer no mundo.

Esse desejo convertido em proposta aparece aqui primeiramente através de iniciativas de expansão da linguagem. Paulo Bruscky utiliza a plataforma de um e-mail para tombar em obra a urgência do comunicado. No backlight Constelação, Rosana Ricalde recria os nortes da grafia de um náufrago; no objeto Farol de ponta verde, Delson Uchôa torna sua pintura superfície para a observação reclusa da incidência de luz; em A casa do passado, Fernando Augusto conduz uma imagem da memória do velamento ao infinito particular. Isabela Stampanoni ilustra capítulos públicos de um diário de seus últimos anos, enquanto Lula Wanderley e Márcio Almeida, também sozinhos, aferem e quantificam,  respectivamente o campo de simultaneidades reunidas nesta mostra. Em Plus Ultra, Oriana Duarte rema rios do Brasil; funde o corpo, técnica e ambiente; traz liquidez dentro da galeria.

A interioridade encontra o exterior num segundo momento, construções, disposto majoritariamente de lado esquerdo de quem entra. Nele, o artista concretiza convívios. Cristiano Lenhardt desdobra o contato de campos de cor; Rodrigo Braga dá nova pele à natureza de Pedra; Rodolfo Mesquita projeta arquitetura irônica e visionária. Ávidos pelo coletivo, Malu Fatorelli propõe as fissuras de Paisagem-chave; Luiz Hermano une desusos na rede de As coisas e Paulo Meira leva companheira a passear por cartões postais no vídeo A perder de vista. A esta última simbiose, e às buscas exteriores em geral, Nicolas Robbio propõe um retorno: o recurso a uma rosa dos ventos feita de referências pessoais como guia na chegada a qualquer território.

Das linguagens às construções e à terceira porção de Linha Orgânica, evidencia-se um eixo de entrada. A exposição acompanha um percurso físico e simbólico, dos gestos disciplinados de José Paulo em Repetir à dissociação aparentemente involuntária entre continente e conteúdo de Sudoratio, obra de José Rufino. A caminhada de volta pelo mesmo trajeto, no entanto, termina por transgredir roteiro e conclusões a que a chegada a esta coletiva possa ter provocado. Na contramão, dissolução vira disciplina. Construção vira ferida no projeto Dr. Diva, de Juliana Notari. Convívio volta a ser reclusão, em Marcos Costa; ou vazio, recorte, subtração de campos não mais presentes, em Antônio Dias e Alex Flemming. Pela Turtle Ball de Felipe Barbosa, viagem volta a ser morada.

Se nos mantivermos fiéis ao que nossos olhos já registraram, na segunda metade de um percurso horário por estes ambientes de passagens, nas vizinhanças espaço-temporais da Linha Orgânica, Oriana Duarte curiosamente rema para trás. Comprova poder remar, portanto, como seus companheiros, para ambos os lados, unindo artista e obra, apresentação e representação, num habitat mútuo e alternante.

 

Texto: Ana Maria Maia

 

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1 Simmel, “Georg. Bruche na Tur”, in Der Dag, 15 de setembro de 1909 (trad. It., “Ponte e porta”, in Saggi di Estetica, Ádua, 1970, PP 3-8), in Argan, Giulio Carlo. História de Arte como História da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 2005

Retratos e Auto-retratos | José Paulo

Nesta quarta (07.10), a partir das 20h, a galeria Amparo 60 apresenta a mostra Retratos e Auto-retratos, de José Paulo. Trata-se de um novo momento de pesquisa do artista, no qual os usuais objetos e esculturas que permeiam sua poética, cederam espaço a uma preocupação pictórica que encontra solução de familiares e amigos de José Pauloo, e também dele próprio, através de imagens ampliadas de envelopes dos remédios consumidos por essas pessoas.

Dentro de Retratos e Auto-retratos,José Paulo empreende uma busca artística de retorno à pintura. Porém, ao invés de usar essa linguagem para retomar  a discussão, ele preferiu buscar elementos pictóricos na fotografia. O artista procura trabalhar em questões formais – luz e sombra, cheios e vazios, variações cromáticas e composições – dentro das imagens dos comprimidos e de medicações. Ou seja, as imagens são transformadas dentro do discurso da pintura. O objetivo é explorar a visualidade do objeto em sua composição real, é provocar uma transfiguração dos remédios para a pintura, buscando, pela ampliação, perceber os conteúdos pictóricos neles existentes.

Assim, a pintura torna-se o fio condutor que conceitua toda a mostra. Para José Paulo, além da busca pela pictorialidade, os remédios ainda representam uma outra discussão que o artista levanta sobre a pintura, a da dimensão da representação e do retratar. Houve a preocupação do artista em fotografar os remédios do jeito que foram disponibilizados pelos convidados. Há, então, fotos amassadas, outras, ainda, com comprimidos pela metade. Essa forma de tratar as imagens revela a preocupação por representação biográfica,  por retratamento dos personagens envolvidos. Haverá na mostra, também, toda uma parte reservada aos remédios consumidos por José Paulo, onde entra a dimensão do auto-retrato. O rastro biográfico deixado pelos usuários dos medicamentos interessa enquanto material poético. É a partir daí que a dimensão do retrato opera, quando a obra irá mostrar as particularidades dos personagens, suas esferas privadas, através do que (e de como) consomem.

Haverá, ainda, imagens de pílulas isoladas, espécie de estudos -esboços- dos retratos (que são as cartelas de remédios), segundo os artistas. Essas imagens fascinaram pela riqueza das texturas, das sombras e dos detalhes, visíveis com a ampliação. Os comprimidos se dividem entre os banais – os evidentes enquanto comprimidos – e os mais complexos visualmente, que podem remeter  à várias outras imagens. O artista preserva as marcas deixadas pelos usuários nos mesmos; impressões digitais, falhas, tudo tornou-se motivo de observação pictórica nas pílulas. Para José Paulo, Retraros e Auto-retratos é um discurso plástico dos medicamentos. A mostra nasceu de sua necessidade de experimentação plástica e, por todo o percurso dos trabalhos, fica evidente sua tentativa de quebrar o formato original do objeto, transformando-o, transfigurando-o para revelar toda a pictorialidade existente em uma simples cartela de comprimidos.


Extinto | Luiz Hermano


Em vez de se expandirem para fora, em direção ao espaço circundante, um denominador comum da maioria das instalações e outras variantes da noção clássica de escultura, os trabalhos de Hermano privilegiam a membrana que separa seu interior do mundo. Sob a forma de volumes de superfícies porosas, intricadas e espessas, relevos fixados na parede e até próteses que se aplicam ao corpo, em qualquer caso suas construções atraem o nosso olhar para perto, para a pele e daí para as entranhas da pele, levando-o a constatar que os corpos, a contar de seus limites, são, parafraseando Herberto Helder “um texto que se multiplica por dentro, sem crescer, cruzado incessantemente por túneis, corredores e caminhos de pronúncia áspera”. (“Poesia toda”, Lis

 

boa: Assírio Alvim, 1981, p.381).

 

Texto: Agnaldo Farias

Fragmento do texto Luiz Hermano – Jogando com Limites

 

Terça a sexta: 10 às 19h
Sábado: 11 às 17h

+55 81 3033.6060

vendas@amparo60.com.br

Rua Artur Muniz, nº 82, 1º andar, salas 13 e 14 (Entrada pelo restaurante Alphaiate)
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