Pharmacia Deluxe

PHARMACIA DELUXE. (ou) Coloridos. Xenicalis. Perfurados. Toxicolor.
Ladainhas. ChanterClayson. Deixa de Lengalenga Neuza. Doloridos.
Travotec. Dourados. Odara Lounge. Glitteration. Hidrolands. Colunas Infinitas.
(e) Casa das Primas (ou) a partir de hoje tudo depois da calçada da minha casa seja mar.

Tramando Mundos | Luiz Hermano

A exposição de Luiz Hermano “Tramando Mundos” apresenta o interesse cosmológico do artista em obras feitas entre 1980 e 2011. Formar mundos e meditar sobre a matemática do universo são interesses que unem todas as obras, desde as aquarelas com temas míticos às mais recentes grades geométricas. Como se colocasse em jogo tentativas de compreensão da origem e possibilidades de conexão com o universo, Hermano busca em várias culturas as estruturas para suas composições intrincadas, tecidas pela mão que vai pensando as tramas, enquanto a mente se esvazia da banalidade do cotidiano. A mão se move rápida e pensa com contas de plástico, capacitores eletrônicos, tubos de alumínio…

Religião, consumismo e tecnologia estão trançados nos fios de arame de Hermano. Na Tailândia, na India, na China, o artista encontrou estátuas de budas em construções milenares, erguidas segundo a geometria sagrada e se encantou com mandalas que esquematizam o universo. Mas também passeou pelas ruas de comércio de quinquilharias de plástico, de brinquedos piratas, de computadores de procedência duvidosa. O sagrado é aqui enovelado com o profano, pois o artista não pretende escapar do mundo cotidiano, mas achar nele mesmo a transcendência.

Luiz Hermano medita enquanto faz suas obras. Ele entra em um estado mental similar ao da criança brincando, e enquanto sincroniza o movimento de suas mãos com a frequência de suas ondas cerebrais, ergue uma área onde a ilusão de ser um com o universo se integra com a consciência de ser separado desse universo. Nas tramas criadas por Luiz Hermano, a ilusão de estar em controle e ser capaz de mapear o mundo construindo objetos coexiste em paz com a frustração de ser um ente de duração finita em um universo que existe em um tempo infinito.

Luiz Hermano nasceu em Preaoca, Ceará, e nos últimos 30 anos teve seus trabalhos apresentados nas principais instituições de arte do Brasil, como Pinacoteca do Estado de São Paulo, Instituto Tomie Ohtake, Centro Dragão do Mar, Museu de Arte Moderna de São Paulo e Rio de Janeiro, MAC-USP, MASP,  além de participar da Bienal de São Paulo em 1987 e 1991, e da Bienal de Curitiba em 2009.

Texto: Paula Braga

 

Individual Rodolfo Mesquita

Certa inabilidade, e as invenções que dela decorrem, atravessam a obra de Rodolfo Mesquita. Qualquer coisa que se pareça com o voluntarismo atribuído ao “estilo” – com suas escolhas repletas de singularidade autoral – é, em verdade, invenção compulsória: o artista não sabe fazer de outro modo e está, assim, obrigado a ser como nos aparece. Nesse sentido, quando Rodolfo afirma sua inabilidade formal e seu não virtuosismo técnico, devemos entender que não se trata de uma”dificuldade em afirmar-se” como artista, mas, antes, de uma incomum disposição em enfrentar a difícil afirmação de uma subjetividade compulsoriamente alienada: nós não sabemos o que fazemos. Assim, uma visão política da história, da economia e do sujeito se presentifica em seu modo de entender e fazer arte: “Nós não somos mestres do que produzimos. O que produzimos se impôs a nós. Alguém que parte do nada, que tem consciência de que a verdadeira intuição artística deve sair do nada. (…) Desenhar só o que não sei. Rude prova de existência como quem diz ‘foi sem saber’”.

 

O que, na obra de Rodolfo Mesquita, poderia parecer um vago marxismo, recoloca-se, portanto, em precisa crítica política. O projeto doutrinário e voluntarista de quase todo o pensamento revolucionário de esquerda é secamente posto em perspectiva por uma obra que, cada vez mais, nada pretende afirmar. O artista responde à frustração generalizada diante “falência” da utopia socialista com um cotidiano trabalho de esvaziamento – ou, tomando de empréstimo um termo deleuziano, de esgotamento – do próprio pensamento utópico. Assim, se até meados dos anos 1990 o trabalho de Mesquita estava às voltas com um esforço de engajamento social, aos poucos a energia é tranposta para outro foco. O desaparecimento dos textos que ofereciam chaves de leitura de caráter habitualmente crítico e social; a paulatina ênfase sobre situações eminentemente corriqueiras (e, portanto, menos narrativas e/ou épicas); o surgimento de personagens menos socialmente demarcados (tantas vezes lidos como “idiotas” mas, fundamentalmente, equivalendo a “qualquer um”); o crescente protagonismo do fundo diante da figura e, com isso, a complexificação da espacialidade na obra do artista, são aspectos que evidenciam essa transformação. De modo geral, o artista esgota seus personagens e narrativas que, assim, diariamente mais socialmente desgarrados, tornam-se cada dia mais políticos.

 

Liberados de “ser alguém” (dessubjetivados, portanto) e habitantes de um espaço não ortodoxo –  ao passo que igualmente não demarcável –, seus personagens performam uma existência que, indisposta com meios e fins, com funções sociais ou vontades narcisísticas, tende a ser pura intensidade: gestos repetidos e sem sentido, olhares destituídos de ponto de fuga, caminhadas para lugar algum, quedas e saltos no vazio, verbalizações mudas – inutilidades que conferem caráter político à inabilidade. Igualmente inaptos, portanto, o artista e sua obra paulatinamente esgotam suas próprias possibilidades e, girando em torno de si mesmos, fundam uma experiência de imanência, de uma continuidade que só se faz porque é, por si, persistente.

 

Compreendendo que “sentir é não ter sensações, assim como pensar é não ter ideias”, a obra de Rodolfo Mesquita tem esgotado os substantivos e adjetivos de outrora para lançar-se a um vazio que, estando evidente na espacialidade em queda de suas obras recentes, está também próximo a Lygia Clark, para quem o “vazio-pleno contém todas as potencialidades. É o ato que lhe dá sentido”[1]. Para o artista, cujos personagens e espaços parecem ter esgotado todas as possibilidades, continuar inventando perdeu seu caráter de escolha e tornou-se ativamente compulsório: “Está em ação, processo em movimento, o verbo é dominante: você está fazendo”.

 

Texto de Clarissa Diniz

 



[1]           Lygia Clark no texto Do Ato (1965). Disponível em http://www.lygiaclark.org.br/arquivo_detPT.asp?idarquivo=18.

Sem Título Algum | Adolfo Montejo, Lula Wanderley e Paulo Bruscky

Sem Título Algum – Cartografia afetiva, Poética e Intempestiva

Começar com o tema da amizade se revelou ser o melhor caminho a percorrer para apresentar Sem Título Algum, mostra expositiva ocorrida na Amparo 60 Galeria, que reuniu pela primeira vez três amigos/artistas — genuínos fazedores de poesias —, Adolfo Montejo Navas, Lula Wanderley e Paulo Bruscky.

Um dos fios que teceu a trama da exposição recaiu sobre a vontade dos artistas de criar um “lugar” que potencializasse o encontro, as poéticas cúmplices e celebrasse a amizade. Nesse aspecto, além do sentido usual do termo, considerei que falar de amizade é falar de multiplicidade, intensidade, experimentação, desterritorialização. A amizade vista dessa maneira esgarça o tecido liso e naturalizado da noção de relação e estende-se para significados que constroem agenciamentos e criam intercessores. O essencial são os intercessores. A criação são os intercessores. Sem eles não há obra. Podem ser pessoas — para um filósofo, artistas ou cientistas; para um cientista, filósofos ou artistas […] é preciso fabricar seus próprios intercessores (Conversações, G. Deleuze).

O que construíram os três artistas? Um agenciamento que poduziu poéticas e narrativas visuais marcadas por singularidades e complexidades, tensões, justaposições, unidades, identidades, proximidades e distâncias. Todas resultantes de intimidades constituídas ao longo de muitos anos de amizade e, sobremaneira, potencializadas pelas conversas trocadas por inúmeros e-mails ao longo dos meses que anteciparam a realização da mostra. Constituiu-se, dessa maneira, uma rede com muitos interlocutores cuja ausência de hierarquias — curador, mentor, sensor — horizontalizou as relações e instigou o acontecimento.

O desenho da mostra se esboçava. Lula Wanderley, afetivamente envolvido — com sua poética refinada, sofisticada, limpa e potente — contava, a partir de outra geografia, dos trabalhos feitos, instigava, mapeava e inscrevia o acontecimento. Imaginava o espaço, desenhava de longe a montagem, produzia conceitos; apostava na trama, na aventura, nas incertezas, na poesia como forma ampliada, expandida, matriz de poéticas e criadoras de mundo, no sentido originário da poièsis. A arte de Lula Wanderley é radical. Do Bem Dentro (2011) — trabalho que guarda uma sutileza na forma e na retórica, beleza do texto visual, que intriga o espectador, instiga o passante a ousar descascar as camadas do que está velado; passando pelo livro Retratos, narrativas dedicadas aos seus intercessores eleitos, aos Objetos Retratos — Obra Líquida, Adolfo X Adolfo e Passante — deliciosamente bem-humorados —, feitos respectivamente em homenagem aos amigos Bruscky, Montejo Navas e seu autorretrato.

Adolfo Montejo, de outro ponto do País, juntava, justapunha, abria diálogos entre os trabalhos de Bruscky, Lula e os seus. Revelava-se conhecedor dos percursos poéticos de seus pares. Bulia em seus trabalhos. O artista produziu séries de poemas visuais, objetos artísticos ricos pela sua contundência poética e política — como bombas de artifício, contundentes e belas —, trouxe livros de artistas, jogos poéticos, entre muitos trabalhos desconhecidos por interessados em arte. O silêncio de seus cadeados suspensos sobre o batente de uma porta olhava ao longe o silêncio de um pênalti, vídeo-poesia de Lula Wanderley. Ambos os trabalhos edificavam, conjuntamente, balizas que marcavam os limítrofes de uma cartografia que se assemelhava a um campo de força, cujas inusitadas narrativas poéticas posicionavam-se entre esses dois pontos. Ressonâncias?

Entre as balizas do silêncio, encontrava-se a obra Antologia Poética — série de poemas visuais feitos por meio da apropriação de cédulas monetárias, cuja re-união justificava-se pela recorrente presença nessas, de imagens de poetas de diversos países. Propositalmente, Antologia Poética acompanhou a obra de Bruscky Leilão de Deus (2012), emitindo crítica ácida ao mercado da fé, ambas, sutileza e ironia, simplicidade e complexidade. Não posso me furtar a mencionar o belíssimo trabalho de Montejo Navas, O Sonhador (2012), que capturou meu olhar pela junção de materiais, poética e possibilidade de fazer pensar/sentir com o corpo todo na dimensão do demasiadamente humano. Uma garrafa de vidro transparente, dentro algodão branco. Na beira da boca da garrafa, uma miniatura de figura humana masculina sentada à beira do abismo, suas pernas cruzadas, à espera.

Também Bruscky — instigado pelas lembranças compartilhadas com Lula no Recife nos anos 1970 e depois em muitos encontros reais e virtuais entre o Rio de Janeiro e o Recife, e com Adolfo, cuja interlocução e cumplicidade já data de anos — produziu dois retratos, rendendo-lhes uma homenagem afetuosa e certamente bem-humorada, com a obra Farmácia 2012. Uma instalação composta por trabalhos novos e antigos, que, como todo retrato, desenhava uma narrativa íntima dos dois amigos. Com a mesma sensibilidade, Paulo Bruscky também homenageia os amigos/artistas em seu texto/obra EULULADOLFO, impresso neste catálogo. A Lula, ele devolve simbolicamente um cartaz desenhado por este na década de 1970. A Adolfo, Bruscky presenteia com uma foto do trabalho Cozinha, obra de Montejo Navas, feita por Bruscky em 2004 em uma de suas muitas visitas à casa do amigo.

Sem Título Algum produziu ruídos poéticos provocativos causados tanto ao meio da arte quanto ao espaço que lhe acolheu, constituindo outro lugar de práticas e experimentações estéticas. Ausências de títulos, de autorias, de espaços demarcados por uma museografia protocolar, provocando nos visitantes o desejo de trilhar e de produzir sua própria escrita. Isso tudo edificou índices reveladores de produções de novos sentidos e estreitou os laços de afetividade e de uma amizade proclamada.


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