RAMONN VIEITEZ – THERE WAS A BOY

 

A partir do próximo dia 7 de agosto, a Galeria Amparo 60 vai receber a exposição There was a boy, do jovem Ramonn Vieitez. A mostra, a primeira do artista na galeria, terá curadoria de Adriano Casanova. Serão 20 pinturas, produzidas entre 2011 e 2014, inéditas, a grande maioria em óleo sobre tela, que falam um pouco sobre o mistério da juventude, suas descobertas e sobre amor.

A ideia da exposição surgiu a partir da música Nature boy, de Nat King Cole, que esteve sempre presente no seu ateliê como estímulo corporal. “Eu acabei conhecendo Nature Boy por causa da versão instrumental que tem no filme The Talented Mr. Ripley e desde então ela tem sido uma referência. A música não é uma inspiração inicial, ela chegou para dar um ´gás´ na produção. A identificação com a letra do Eden Ahbez foi quase imediata. É uma canção que conta a história de um ´very strange enchanted boy´, algo que falo muito no meu trabalho”, descreve o artista.

O curador  Adriano Casanova achou que seria pertinente amarrar a mostra através da narrativa da canção e sugeriu batizá-la com a primeira frase da letra. Segundo ele, o trabalho de Ramonn gira em torno desse menino, sempre presente na sua pintura. “Isso foi o pontapé da exibição. Selecionamos os trabalhos não por data de produção, e sim por temáticas. Elementos que sempre estão presentes na pintura, retratos, natureza… Uma sequência não cronológica que transmita uma atmosfera onírica, algo de forte interesse para o artista”, explica.

Segundo Ramonn, as obras em exibição não devem ser vistas como uma série. Parte delas é o resultado de uma investigação desenvolvida desde 2011 e que ele segue dando continuidade. A outra é mais uma busca poética sobre temas recorrentes no seu trabalho, a criação de um personagem central que sai vivenciando diversas situações. “Os trabalhos não autobiográficos, mas trazem certas referências. Eu pego algumas situações da realidade e as transformo. Como eu faço isso de uma forma mais intensa, digamos assim, acaba se confundindo com o biográfico, mas não chega a ser”, pontua Ramonn.

O artista faz parte do casting da Galeria Amparo 60, desde 2013. Essa será sua segunda individual no Recife. A primeira, O império dos sonhos, esteve em cartaz entre os meses de junho e julho no Instituto de Arte Contemporânea da UFPE. Na mostra, Ramonn apresentou 14 obras, entre pinturas e serigrafias.

Ao longo de sua trajetória artística, ele tem se dedicado especialmente a suportes clássicos e bidimensionais, mesmo diante das múltiplas possibilidades que se apresentam hoje. “Usualmente, os artistas da nova geração não exploram a exaustão o domínio de uma determinada técnica, nem tratam em seus trabalhos de questões pessoais. Acredito que Ramonn segue no caminho inverso, buscando exatamente aprimorar sua técnica e mergulhar em questões pessoais, como um diário, uma narrativa que através das pinturas conta coisas de sua vida”, analisa o curador.

Por Mariana Oliveira

 

RAMONN VIEITEZ – THERE WAS A BOY

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2014 

“There Was a Boy”
Curadoria: Adriano Casanova
07 de Agosto, 2014, Recife – PE

 

Nesta exposição do artista recifense Ramonn Vieitez é mostrada uma série de pinturas produzidas ao longo dos últimos dois anos. O título vem de uma apropriação do primeiro verso da canção Nature Boy , originalmente produzida nos anos 50 pelo americano Eden Ahbez e logo depois popularizada na voz de Nat King Cole. Essa música fala sobre uma fantasia de um menino estranhamente encantado que vagava havia muito tempo e que, em um mágico dia, disse: “A melhor coisa que você nunca vai aprender é amar e ser amado em troca”. De acordo com Ramonn, essa letra permeia de uma maneira única e pontual a atmosfera da exposição, costura os personagens retratados pelo artista em suas telas com outras histórias e narrativas, ao som de melodias de jazz que são tocadas no ambiente da galeria.

“A música está sempre presente no meu ateliê como estímulo corporal, algo que me dá energia na hora de produzir. Eu acabei conhecendo Nature Boy por causa da versão instrumental que tem em The Talented Mr. Ripley , e desde então ela tem sido uma referência poética. Ela está sempre presente na minha rotina, não ficando presa só a um momento.”

Nos dias de hoje, o romantismo da música de Ahbez se relaciona com a obra de Ramonn ao também propor um retrato sobre uma fantasia. Pela visão do artista, ela é mais parecida com a ideia de um “jardim secreto”; um imaginário entranhado desse romantismo e capaz de recortar anseios e expressões sobre uma nova geração. A pintura é coberta por
uma melancolia advinda de seu entorno: Recife. A cidade em que nasceu vai além de seus fatores históricos e personagens imortalizados na memória da arte brasileira; ela desperta uma insaciável liberdade para Ramonn, não só para suas fantasias e seus devaneios como também para seu incansável desejo de pintar novas descobertas.

“Tem um caso bem particular pelo qual desde criança eu sou encantado. Recife foi uma das cidades que passaram a receber os dirigíveis que vinham da Europa, e a primeira estação aeronáutica para dirigíveis da América do Sul foi construída e ficou conhecida como ‘Torre do Zeppelin’. Há anos está abandonada. Desde criança eu sempre via de longe essa construção, uma torre incrível, de ferro, toda amarela, que se destacava no meio do matagal. Sempre me batia uma curiosidade muito grande de ver aquilo de perto, e lembro-me da primeira e única vez que consegui. Fiquei fascinado com aquela atmosfera, com aquela sensação de descobrir algo fantástico, uma construção arquitetônica incrível. Uma interferência do homem na natureza de uma forma muito encantadora. Não existia um confronto visual, e sim uma grande harmonia.”

O fascínio pelo inusitado, misturado à vontade incontrolável de sentir novos mundos, compõe parte da vida dos personagens pintados pelo artista. As pinturas são sustentadas por um universo imaginário único e especial, uma visão jovem sobre a vida, a natureza e a cidade.

“Sempre gostei muito de jardins e adorava passar horas e horas desenhando e imaginando como eles poderiam ser. Tenho um episódio muito especial de que me lembro bem. No momento em que vi pela primeira vez a planta costela-de-adão eu percebi seu encantado, no sentido de ver uma coisa e focar todas as atenções nela, de ver um objeto da natureza. Lembro que fiquei horas lá desenhando diversas formas e posições (…).”

Foi na faculdade de design e moda que Ramonn não só se reencontrou com seu desenho como também descobriu novos canais de expressão para sua intuição artística. Em 2009, o artista criou um projeto de figurino baseado no livro Morte e Vida Severina . Esse trabalho o fez mergulhar para além da pintura, foi um pontapé inicial para aprofundar suas pesquisas em temáticas para o aprimoramento de seu traço como artista.
“(…) a partir dali eu fui pesquisando, gostando mais e mais, me forçando a desenhar e a conhecer novos materiais. E nessa busca de técnicas e novos materiais eu acabei conhecendo tinta a óleo, e desde então até hoje eu não parei.”

Para todo artista, seu material é uma arma de expressão de sua sensibilidade, e com Ramonn não é diferente. Em seu caso não existe uma justificativa de por que sua obra é uma pintura; ela é sustentada primordialmente pela fantasia e é pintura simplesmente porque é pintura. Seu objetivo diário tem uma outra importância, a de desbravar seu jardim secreto imaginário. Olhar por meio dos olhares dos personagens das pinturas, muitas vezes envoltos por cruzes ou suspensos em árvores; pinturas nas quais suas cores brilhantes são característica de uma geração que está sempre sedenta por ver a vida de modo diferente e por ver a arte de uma maneira romântica como se ao seu redor houvesse um turbilhão de novas descobertas. Além de sua relação com a arquitetura e a memória recifenses, Ramonn leva sua fantasia sempre intrínseca a suas vivências pessoais. Em T here W as a B oy, ele fala de um menino que esteve ali e que passou, levanta questões que vão muito além do autorretrato, visivelmente inseparável de sua obra, mas que caminha para outras facetas, “personas” e lugares que são condensados pela tinta a óleo. Talvez as contradições em sua obra sejam as mesmas encontradas em sua Recife travestida: o histórico versus o contemporâneo, o antigo versus o novo, o abandono versus as ocupações; fica difícil distanciar sua obra de seu entorno e de sua história de vida. É por meio desses contos de Ramonn que deparamos com esses meninos que estiveram alí. São as várias personalidades do artista banhadas por sensações que caminham entre a musicalidade jazzística, a literatura de João Cabral de Melo Neto vista pela perspectiva de uma “costela de Adão”. Mas Recife não é citada aqui somente porque é fonte desses espaços constantemente repensados pelo artista; é também a capital dos “meninos de Ramonn”. Para um jovem artista, hoje é fundamental muita fantasia para combater o desespero exacerbado de um mercado que impõe rapidez, de uma produção submetida a normas preestabelecidas. Desligada da assombração de uma possível revitalização da pintura, sua obra vai além dessa necessidade multifacetada do artista, que muitas vezes atua como produtor e deixa de lado a virtude do fazer a arte pela janela da imaginação. É fácil encontrar nas obras presentes na mostra anseios românticos, muito característicos de um jovem pintor, o que compele Ramonn à procura pela fantasia perfeita. Quando seus meninos tomam vida, eles se tornam capazes de marcar um olhar particular sobre a natureza, uma força espiritual carregada de um mistério insolucionável.

Por Adriano Casanova

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Sábado: 11 às 17h

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