REC>BRU Pernambuco Contemporâneo

Renda-se como eu me rendi.

Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.

Pergunte, sem querer a resposta, como eu estou perguntando.

Não se preocupe em ‘entender’.

Viver ultrapassa todo o entendimento.

Clarice Lispector

 

Há anos Pernambuco, estado localizado na região nordeste do Brasil, tem se revelado como um território de imensa, rica e vasta produção da cultura e das artes de maneira geral. Emblemáticos nomes ficaram na memória e fazem parte dessa história de experimentalismos nos fazeres da arte, da cultura, na produção de tratados críticos e literários sobre a reflexão do Brasil e do nordeste brasileiro. Obras e seus criadores, como as de Ariano Suassuna, Cícero Dias, Vicente do Rego Monteiro, Francisco Brennand, Gilberto Freyre, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Chico Science, entre tantos intelectuais/artistas que contribuem até a atualidade para a construção de uma fisionomia do que é o nordeste, o sertão, o homem que habita esse território e suas culturas e subjetividades.

No âmbito das artes visuais diversas trajetórias artísticas e poéticas tem se consolidado nacional e internacionalmente, levando com esses repertórios visuais as heranças e as novidades de um estado brasileiro que explode em criatividade. Em suas mais diversificadas poéticas os artistas visuais pernambucanos provocam, sobretudo, inquietações nos olhares dos especialistas da área e do público em geral, pois há em dadas poéticas fios de singularidades pulsantes que atraem os olhares mais atentos.

Mais recentemente, por volta de meados dos anos 1990, a produção pernambucana das artes – cinema, música, artes visuais, principalmente – provocou um esfacelamento de temas regionais e ampliou as maneiras e meios de produzir seus discursos e poéticas para além das fronteiras do local. Esse sintoma foi fruto do chamado processo de mundialização da cultura, dos avanços das pesquisas tecnológicas e seus desdobramentos e da internacionalização econômica, que provocou deslocamentos reais e virtuais de artistas da cidade do Recife – capital de PE – para demais geografias, assim como a presença de críticos, artistas e obras de outras regiões do Brasil e do mundo, para a cidade do Recife.

A dinâmica do campo das artes se modifica. O circuito artístico se intensifica e a circulação dos produtos culturais em feiras, as grandes mostras internacionais possibilitou uma maior visibilidade de uma parte da produção artística pernambucana que se materializa de maneiras diversas, efêmeras e fragmentadas. Temas e repertórios, procedimentos, materiais e meios de produção das poéticas desses artistas ampliam o próprio local tornando-o simultaneamente local/internacional, assim como, nos desdobramentos, ecos e reverberações que suas produções repercutem no exterior contribuem para localizar o internacional e redesenhar um imaginário sobre o que poderia ser o Brasil, o nordeste, o sertão, o homem dos trópicos.

O percurso de criação que trilharam esses criadores e os artistas pernambucanos da atualidade – que ora apresentamos nesta exposição Pernambuco Contemporâneo – foi e ainda tem sido a aposta nos fazeres cujo fio condutor é o experimentalismo, como maneira de representação de si, da cidade e do mundo no qual se habita. Por meio de ousadias e astúcias na escolha e no uso de materiais, nos procedimentos poéticos, nos repertórios e temas abordados, os artistas convidados para compor essa mostra revelam em seus processos criativos e em seus trabalhos uma atitude experimental frente à arte e ao meio artístico. A proposta com essa exposição coletiva é reunir 12 artistas visuais de importância para o percurso de consolidação da arte contemporânea produzida em Pernambuco, e, ao mesmo tempo trazer para o debate questões sobre a multiplicidade dessa produção poética e desses artistas.

A exposição Pernambuco Contemporâneo reúne 12 artistas de quatro gerações que apresentam obras realizadas em variados suportes: Daniel Santiago, Eudes Mota e Paulo Bruscky representam o experimentalismo da década de 1970. Gil Vicente e Renato Valle, muito jovens nos anos 1970, iniciam-se na pintura, no desenho e na gravura para nas seguintes décadas se firmarem como artistas visuais que experimentam de maneiras diversas essas linguagens. Marcelo Silveira, Márcio Almeida, Oriana Duarte, Paulo Meira, herdeiros diretos da geração conceitual dos anos 1970, na década de 1980 em diante, extrapolam as fronteiras das linguagens, dos suportes, das gramáticas e campos semânticos do próprio meio artístico, produzindo fissuras e esgarçamentos na tradição das artes visuais pernambucana. Por fim, um breve esboço da produção artística da chamada geração 2000, nas experiências gráficas de Kílian Glasner, e Jeims Duarte e nas operações, ações e atitudes do artista Lourival Cuquinha. Apesar de reunir obras de artistas visuais pernambucanos que trabalham com variados suportes e poéticas, todos seguem numa mesma verve tórrida nordestina.

De um realismo desconcertante, os desenhos de Jeims Duarte, embaralham nossa cômoda visão de mundo e nos levam a um plano ora melancólico e trágico da condição humana, ora de uma arquitetura ironicamente denunciada no seu abandono público.

Já os desenhos de Kilian se ocupam de lugares, talvez, retirados de fotografias, talvez do inconsciente, ou do mundo nos qual habitamos, esses se apresentam em preto e branco e oferecem ao público essa experiência onírica, e, por si, contemplativa. Um território de emoções e reconhecimento.

O dinheiro e todo o complexo valor econômico permeiam a obra de Lourival Cuquinha. Suas colunas de moedas, suas bandeiras de notas de euros, refletem sobre os mecanismos do mercado da arte. E o motivo primeiro de trabalhar com o dinheiro, foi a falta dele quando esteve acompanhando sua companheira em um programa de pós-graduação em Londres em 2007. Desde então, os conceitos de economia mundial, capitalismo e política, se incorporaram ao seu trabalho. Para essa exposição, uma bandeira da Bélgica com notas de Euros. Segundo Lourival, “dinheiro costurado e vendido por mais dinheiro”.

Paulo Meira, artista que inicia sua trajetória em meados dos anos 1980, integra o coletivo Camelo durante os anos 1990 e nesse sentido é um investigador da visualidade, a imagem o interessa como texto a ser decifrado e recriado por meio de seus signos, referências e significados. O vídeo Épico Culinário, escolhido para essa mostra envereda pelos caminhos simbólicos e sociológicos da arte. Personagens inventados, beirando uma ficção cinematográfica, o teatro, o performer. Nesse hibridismo, Meira faz cinema de artista. A fotografia e a pintura estão presentes na sua obra sempre. Poderíamos inserir seus trabalhos nessa linha tênue que marca as imprecisões que o experimentalismo na arte do século XX potencializou.

Oriana Duarte percorreu praticamente as mesmas trilhas de Paulo Meira e Márcio Almeida, contudo, mescla sua atuação artística com a docência e a pesquisa na universidade. Seu trabalho impressiona pela força visual e pela dilatação da experiência humana no âmbito da experiência artística. A artista coloca, em alguns contextos de produção, o corpo, seu corpo disponível para a experiência artística e estética. O tempo, o corpo, a palavra, em seus mais diversos movimentos e significações, são sujeitos de suas investigações. O trabalho Nós Errantes passou por cidades como Salvador, Belém, Brasília e Vitória. “Assim, tal como aprendi, o deslizar fluído do remar surge como uma outra via de pensar a nossa condição de vida de artista: Vida errante. Via pela qual procuro, agora, exercitar a arte através do que poderíamos chamar de sua força alocutária: “força capaz de estreitar, ou mesmo anular as distâncias entre o que é dito e o que é vivido.” Apresentamos, Nós, Errantes: vídeo de rios remados e suados, um skiff (barco a remo), desenhos e bilhetes – quase souvenires da sua viagem.

Mesmo que a trajetória artística e poética de Renato Valle venha da figuração na pintura e no desenho, sobremaneira, o artista experimenta outros suportes e esse trabalho denominado por o Mealheiro traduz para o autor o poder simbólico e econômico em detrimento da fé alheia. Uma cabeça de Cristo em resina acrílica serve de depósito para cédulas de euros e de real (moeda brasileira).

Marcio Almeida – um dos herdeiros das experiências fluxos de Paulo Bruscky -, apresenta nessa mostra desenhos misturados a manchas pictóricas que se sobrepõem, é o que ele presencia no espaço da urbanidade e ou o que passou pelos meios de comunicação impressa ou não. Talvez, simplesmente, palavras soltas que escutou de um visitante em seu atelier, poderá de alguma forma, freqüentar suas pinturas. E desse cotidiano Almeida alimenta sua produção e sua poiésis.

O hibridismo dos materiais, da forma, a presença de objetos e a tensão com o espaço, se materializam na poética de Marcelo Silveira, artista que dá lugar a uma operação hibrida entre a apropriação de objetos trazidos para o território da arte contemporânea, o uso de materiais ordinários (da vida cotidiana) e uma aposta na ressignificação do que é popular na arte contemporânea.

Para Gil Vicente, pintor, desenhista, gravador que em sua trajetória artística vem se dedicando à representação pictórica e gráfica cuja poética reside na intensidade gestual e no rigor da forma, nos surpreende com essas fotografias, sem escapar da sua poética, deixa claro, com suas imagens borradas ou desfocadas, que a sua preocupação não reside no documental, mas no plástico, gráfico e pictórico.

Eudes Mota, pintor, desenhista, escultor e gravador – importante artista representante da abstração e geometria em Pernambuco -, mas que não se prende ao modelo das vanguardas que surgiram no século XX, se insere nas questões contemporâneas, elaborando um vocabulário muito particular.  Mota nos apresenta o trabalho Classificados, com páginas de jornais que se transformam em elaboradas composições geométricas.

Bruscky e Santiago marcam nossa história da arte conceitual e de maneiras diferenciadas, notáveis nos trabalhos aqui trazidos, brincam com o estatuto da arte. Daniel Santiago, um criador, poeta, professor, nos surpreende sempre com suas performances, happenings, teatrobjeto, entre outras atitudes artísticas. Incansável, o artista apresenta nessa mostra o resíduo de uma ação performática que vem realizando em diversos sítios de toda parte do mundo, onde incorpora o personagem Godot que espera por seu criador, do escritor e teatrólogo Samuel Beckett. Esse é um trabalho que produz sempre um riso no espectador e, por vezes, o transforma de mero espectador no próprio autor da obra. Um dos trabalhos mais impressionantes da arte contemporânea atual.

Paulo Bruscky, tão criativo como Daniel, ambos formavam uma dupla, Bruscky & Santiago até o início dos anos 1970. Pioneiro na utilização de mídias contemporâneas como a arte postal, audioarte, videoarte e xerografia no Brasil, manteve correspondências com o Grupo Fluxus (detentor do maior acervo da América Latina) Esse suportes efêmeros dão corpo ao pensamento crítico de Bruscky. Para essa mostra, uma carta produzida em 2008 – AR-RECIFES de POESIA de PBY O Recife em Prova e Prosa – Roteiro I, que narra seu olhar para a cidade do Recife entrelaçando versos com outros grandes personagens históricos da cidade, com os nomes dos seus trabalhos de arte e o seu amor pela cidade que vive.

Recife: hoje a arte é este comunicado.

É possível ver – por meio de uma visada lenta, atenta e cuidadosa – esse hibridismo entre temporalidades, geografias e culturas. Falar de si e do Recife é há um só tempo narrar o mundo e temas universais. É de uma mirada de fragmentos desse mundo no qual todos nós habitamos que nos falam os artistas pernambucanos, entre narrativas singulares e universalizantes. Um mundo híbrido, misturado, com muitos fluxos temporais e produtor de práticas culturais muito diversas e diferentes.

Assim, pretendemos construir com a mostra coletiva um caleidoscópio visual trazendo à luz imagens que, de certa maneira, narram fragmentos dessa geografia. Além de provocar o público para a reflexão sobre a multiplicidade dessas poéticas, suas singularidades, proximidades e distâncias, e, sobretudo redesenhar na contemporaneidade uma cartografia das artes visuais contemporânea realizada em Pernambuco, que felizmente, vive em constante mutação. Como as imagens de um caleidoscópio. Basta apontar para a luz e acertar o seu foco. É neste ambiente que circulam e se alimentam os artistas contemporâneos brasileiros do nordeste, apropriando-se de linguagens e meios tecnológicos ressignificando heranças e tradições locais, experimentando, sem pudor materiais e formas de produzir arte.

 

Beth da Matta

Joana D´arc de Souza Lima

Recife, abril de 2014

Terça a sexta: 10 às 19h
Sábado: 11 às 17h

+55 81 3033.6060

vendas@amparo60.com.br

Rua Artur Muniz, nº 82, 1º andar, salas 13 e 14 (Entrada pelo restaurante Alphaiate)
Boa Viagem | Recife | Pernambuco