Habitar | Fernando Augusto

̶        Quem sabe, nesta exposição, poderíamos trazer para a galeria um pouco do processo e do ambiente vivenciado no ateliê?

̶        Sim, um pouco das dúvidas, das incertezas, do movimento do fazer. Então, vamos pensar pintura, desenho, imagens em processo, cadernos de anotações, livros de artistas. Lembro-me de que certa vez, olhando meus trabalhos, você me falou para ser mais generoso com o espaço quando eu fosse fazer uma exposição. Acho que você via ali uma possibilidade de trabalhar o espaço expositivo com as obras ativando o espaço, o lugar. Esta mostra na Galeria Amparo 60 é um bom momento para realizarmos essa ideia.

̶        Sim, porque você pensa mais o bidimensional, e eu penso nas relações dos objetos com o espaço.

̶        Quando a galeria me propôs um projeto de exposição, eu pensei, a princípio, na série de pinturas que venho fazendo que se chama Habitar. São pequenas telas a óleo que tratam da questão dos espaços vazios, de cantos e vãos de paredes dentro de casa. São espaços que sempre passam despercebidos, e às vezes neles são colocados móveis que ali ficam por muito tempo e, quando se tiram esses móveis, parece que os lugares guardam uma memória dos objetos ausentes.

̶        O livro de artista que você me mostrou Faça uma frase nesse instante poderia ser o elemento norteador da exposição — aberto ou fechado, com páginas soltas ou coladas nas paredes feito cartazes. Junto a ele, outros livros que levam até essa sua série de pinturas, a fotografias e até mesmo a desenhar na parede da galeria. Isso eu chamo de habitar.

̶        Sim, eu até já fiz um projeto de exposição trabalhando essa ideia: um pequeno quadro na parede e a continuação das formas no espaço, além da moldura. É uma prática de ateliê, muitas vezes vou acrescentando telas ou papéis a uma composição enquanto vou

 

desenhando e, só depois, ao sabor da imagem, é que defino as dimensões do trabalho.

̶        A sua série Pintura sobre pintura, desenvolvida nos anos 1990, tem isto; um processo, uma prática expandida da pintura, camadas, atualizações de pensamentos sobre pensamentos anteriores. Isso acontece de muitas maneiras no trabalho de ateliê e no processo criativo. Às vezes, fazemos coisas que, com o tempo, não gostamos mais, então devemos atualizar esses trabalhos. É covardia continuar convivendo com os trabalhos desatualizados, de que não gostamos mais, somente porque um dia o demos como pronto. Exposição é também pensar o espaço.

̶        Isto é: ativação do espaço. Exposição é também criação. Assim, levar os trabalhos para uma sala expositiva é continuar a criação, a construção do trabalho.

̶        Articular as diferentes obras é parte do processo de trabalho do artista. Essa interlocução — conversa entre artistas sobre os trabalhos e o processo de construção da obra para uma exposição — me interessa muito. Tal como fazíamos quando éramos estudantes de Artes, em workshops, visitas a ateliês, etc. Hoje, perdemos bastante essa prática porque nos tornamos profissionais e ficamos com pudores de opinar no trabalho do outro e também de aceitar opiniões. Esta exposição nos faz retomar isso. Você já visitou várias vezes meu ateliê no Recife e em Gravatá, agora, aproveito este projeto de exposição para visitar o seu, em Vitória, ver seu processo de trabalho, também sua oficina de serigrafia e, quem sabe?, conhecer o espaço cultural do Mosteiro Zen de Ibiraçu.

̶        Combinado…

 

Trecho da conversa entre Fernando Augusto e Marcelo Silveira para tratar da exposição Habitar em São Paulo-SP, em 28/10/2011.

Terça a sexta: 10 às 19h
Sábado: 11 às 17h

+55 81 3033.6060

vendas@amparo60.com.br

Rua Artur Muniz, nº 82, 1º andar, salas 13 e 14 (Entrada pelo restaurante Alphaiate)
Boa Viagem | Recife | Pernambuco