Linha Orgânica | Coletiva

De recortes e alianças é feita a Linha Orgânica. Entre uma e outra operação, está o artista. Estão aqui 21 nomes do casting da Amparo 60 e um convidado em torno da observação das continuidades, não exatamente entre arte e vida, mas entre apresentação e representação nos intervalos de liberdade em que o artista opera. Nestes intervalos, na contramão de resiliências e pragmatismos, através de sua obra, o artista codifica, reordena, encapsula. Constrói abrigos para suas posições e poéticas. E, dessa forma, as põe a conviver.

Convivem aqui distintas origens e gerações, aproximadas pelas suposições da mostra. Convivem jovem curadora e galeria que, ao longo de uma década, matiza atividades comerciais e institucionais na cidade, colabora na edificação de um circuito e na contínua busca por formas próprias de produzir e colecionar arte.

O fundamento deste exercício de olhar, desta pequena narrativa sobre o processo de criação, vem de Lygia Clark, que, na década de 1950, no contexto do neoconcretismo, lança o termo “linha orgânica” para designar um espaço entre a tela e a moldura, uma junção de planos até então vistos como antagônicos e impermeáveis. Lygia comenta questões da virada da modernidade ainda caras à arte contemporânea.

Uma delas diz respeito à materialidade da obra, que, de estatuto objetual puro, é tensionada ruma à inscrição no tempo e nas estruturas (molduras) que a comportam. Escapa ao corpo físico e justifica-se, assim, daí por diante, como ideia, ação, evento. Outra questão apostada por Lygia tem a ver com as interfaces que um trabalho artístico cria com o que o circunda, suas bordas. Bordas difusas, passagens sempre possíveis para a interdisciplinaridade e para o vislumbre de que a  arte pode não só desejar, mas fazer no mundo.

Esse desejo convertido em proposta aparece aqui primeiramente através de iniciativas de expansão da linguagem. Paulo Bruscky utiliza a plataforma de um e-mail para tombar em obra a urgência do comunicado. No backlight Constelação, Rosana Ricalde recria os nortes da grafia de um náufrago; no objeto Farol de ponta verde, Delson Uchôa torna sua pintura superfície para a observação reclusa da incidência de luz; em A casa do passado, Fernando Augusto conduz uma imagem da memória do velamento ao infinito particular. Isabela Stampanoni ilustra capítulos públicos de um diário de seus últimos anos, enquanto Lula Wanderley e Márcio Almeida, também sozinhos, aferem e quantificam,  respectivamente o campo de simultaneidades reunidas nesta mostra. Em Plus Ultra, Oriana Duarte rema rios do Brasil; funde o corpo, técnica e ambiente; traz liquidez dentro da galeria.

A interioridade encontra o exterior num segundo momento, construções, disposto majoritariamente de lado esquerdo de quem entra. Nele, o artista concretiza convívios. Cristiano Lenhardt desdobra o contato de campos de cor; Rodrigo Braga dá nova pele à natureza de Pedra; Rodolfo Mesquita projeta arquitetura irônica e visionária. Ávidos pelo coletivo, Malu Fatorelli propõe as fissuras de Paisagem-chave; Luiz Hermano une desusos na rede de As coisas e Paulo Meira leva companheira a passear por cartões postais no vídeo A perder de vista. A esta última simbiose, e às buscas exteriores em geral, Nicolas Robbio propõe um retorno: o recurso a uma rosa dos ventos feita de referências pessoais como guia na chegada a qualquer território.

Das linguagens às construções e à terceira porção de Linha Orgânica, evidencia-se um eixo de entrada. A exposição acompanha um percurso físico e simbólico, dos gestos disciplinados de José Paulo em Repetir à dissociação aparentemente involuntária entre continente e conteúdo de Sudoratio, obra de José Rufino. A caminhada de volta pelo mesmo trajeto, no entanto, termina por transgredir roteiro e conclusões a que a chegada a esta coletiva possa ter provocado. Na contramão, dissolução vira disciplina. Construção vira ferida no projeto Dr. Diva, de Juliana Notari. Convívio volta a ser reclusão, em Marcos Costa; ou vazio, recorte, subtração de campos não mais presentes, em Antônio Dias e Alex Flemming. Pela Turtle Ball de Felipe Barbosa, viagem volta a ser morada.

Se nos mantivermos fiéis ao que nossos olhos já registraram, na segunda metade de um percurso horário por estes ambientes de passagens, nas vizinhanças espaço-temporais da Linha Orgânica, Oriana Duarte curiosamente rema para trás. Comprova poder remar, portanto, como seus companheiros, para ambos os lados, unindo artista e obra, apresentação e representação, num habitat mútuo e alternante.

 

Texto: Ana Maria Maia

 

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1 Simmel, “Georg. Bruche na Tur”, in Der Dag, 15 de setembro de 1909 (trad. It., “Ponte e porta”, in Saggi di Estetica, Ádua, 1970, PP 3-8), in Argan, Giulio Carlo. História de Arte como História da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 2005

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