Paisagens | Rodrigo Braga

Artistas de títulos herméticos (Fantasia de compensação, 2004; Da alegoria perecível, 2005), Rodrigo Braga intriga na presente exposição a partir do título – Paisagens. O nome singelo de sua mostra individual na galeria Amparo 60 mascara uma intervenção ostensiva na paisagem que o artista retrata; de uma erosão em um barranco, brotam frutas e legumes em abundância; em uma queda-d’água, camuflado entre as pedras, estende-se um couro de boi; no meio de uma mata fechada, pendendo de uma samambaia, um pequeno cardume se insinua; do caule de uma árvore, desprende-se uma serra dentada, meio bicho, meio máquina.

Assim como a arte conceitual tornou toda a arte, retroativamente, puro conceito e assim como, do mesmo modo, a pintura abstrata transformou, retrospectivamente, toda a história da pintura em uma história da abstração, também a fotografia digital lançou luz sobre os procedimentos fotográficos, convertendo-os em uma constante construção. Se toda representação da natureza na arte, ou seja, toda paisagem (pictórica, fotográfica, etc.) puder ser considerada, hoje, conceitual e abstratamente, isto é, como uma construção, então a série de fotografias que Rodrigo Braga nos apresenta não deveria surpreender pelo caráter fabricado das paisagens que temos diante de nós.

Entretanto, uma vez que as discussões da arte não são incorporadas, necessariamente, pelo meio cultura – por vezes, nem mesmo pelo meio artístico; vejam-se, por exemplo, os discursos contra a figuração na pintura -, e considerando que a apreensão da fotografia segue ligada a uma fé cega na fixação do real, as imagens da exposição tendem, sim, a surpreender. O que teria acontecido para brotarem peixes da terra de Fato? Qual estranho magma faria eclodir do seio da terra centenas de ovos na obra Homônima? Esses acontecimentos bizarros que o olhar tenta desvendar pressupõem uma ação do artista, uma performance que, desta vez, permanece escondida;

Do corpo à paisagem, a trajetória de Rodrigo Braga se confunde com as discussões mais acaloradas em torno das mutações biogenéticas possibilitadas pela revolução tecnológica: Um cyborg dotado de pulsões caninas em um ambiente suspenso em suas determinações naturais pela inserção e um corpo estranho surgem, nas pesquisas do artista, em inegável sintonia com o espírito de nossos tempos. Mas por que paisagem? E por que agora? O artista responde com sua própria produção anterior: a comunhão com a natureza, com o lado mais primordialmente animal do homem o levou a uma comunhão também com o ambiente onde se davam suas performances mediadas pela fotografia.

Uma  dessas performances, intitulada Leito, integra a exposição, fazendo lembrar de homem e animais são parte incontornável de qualquer ideia de “paisagem”. A série de fotografias preto-e-brancas, organizadas em um slideshow, mostra a interação com o cadáver de um porco; entretanto, tudo se passa em um tom rebaixado, dentro de uma caída, sussurrando, sugerindo que a etapa de mitologias pessoais ritualizadas pode estar dando lugar à alegorização de fantasias de compensação coletivas na produção do artista. A paisagem construída que o olhar teima em não enxergar comprova o alcance dessa nova empreitada de Rodrigo Braga.

Texto: Juliana MonachesiPa

Terça a sexta: 10 às 19h
Sábado: 11 às 17h

+55 81 3033.6060

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Rua Artur Muniz, nº 82, 1º andar, salas 13 e 14 (Entrada pelo restaurante Alphaiate)
Boa Viagem | Recife | Pernambuco