O Marco Amador | Paulo Meira

“…Because mistery does not mean nothing. It is unknowable” (Magritte)

 

Num quadro de René Magritte observamos um homem que tem sua cabeça separada do corpo. Ele está vestido de terno e gravata (uma presença constante nos trabalhos do artista belga e interpretado como uma recorrência de auto-representação) e sua cabeça mais parece uma fusão alaranjada de sol e lua. Esta constatação é reforçada pela paisagem ao fundo, um belíssimo e íngreme precipício de cor azulada que compõe um degradé com o azul matizado do céu. O nome da obra é L’art de Vivre (1967), ou seja, A Arte de Viver, e sempre me ocorre quando busco compreender o que é afinal viver. Sobre este assunto, guardo outras referências pessoais como livros, músicas e filmes, mas gostaria de me deter na carga simbólica e cromática de Magritte. Talvez minha interpretação seja por demais tola e imediata, mas ela me leva a acreditar que o segredo desta jornada seria não temer os penhascos, mas reconhecer sua beleza e intensidade, pois evitá-lo seria o mesmo que parar de se arriscar e de viver.

A Arte de Viver também me persegue quando penso no trabalho Marco Amador – Sessão Cursos, de Paulo Meira. Essa associação pode ser entendida como uma relação direta ao fato do narrador do vídeo ser também um homem engravatado e sem cabeça (uma referência direta feita por Meira a outra obra de Magritte: O princípio do prazer), apesar do quadro de Magritte não ocultá-la, mas não apenas por isso. Eu não me permitiria ficar apenas na superfície diante de uma obra que nos oferta tanta inquietação e citações. Eu me refiro à presença constante de imagens e menções  ao risco, ao lançar-se ao desconhecido, ao expor-se. Portanto, o encontro de Magritte com Paulo Meira se dá por similaridades de atmosfera, de sentido e de imagéticas e não se trata da única referência pictórica no vídeo (podemos localizar facilmente outras alusões a artistas de períodos distintos da história da arte como Bruegel e Malevich). Comumente, a pintura coloca-se como um manancial constante de repertório e de meio expressivo para Meira. Ela serve como uma espécie de infiltração para outras linguagens, atuando no que já se convencionou chamar de potência do campo expandido¹.

Seria prudente talvez realçar o interesse do artista pelo amadorismo, propulsor da série Marco Amador da qual desdobra-se Sessão cursos. Como é do conhecimento popular, o amadorismo apoia-se na paixão e entusiasmo por uma atividade sem grandes pretensões e expectativas de retorno financeiro. Também é o avesso do profissionalismo, atitude cada vez mais requerida no mundo globalizado. Contrapor-se a esta obrigação é abrir-se para o que foge ao padrão, ao que aos poucos obsolesce, ao imponderável. Trata-se ainda de um reconhecimento das conquistas advindas de pequenos acontecimentos e de experimentos de pequena escala. O artista articula a noção de amadorismo com a de marco, que identifica viradas paradigmáticas para qualquer campo do conhecimento. Poderíamos compreender ainda que mencionar o amadorismo seria uma licença poética para explorar o imaginário do artista e uma certa nostalgia do mistério e da poesia. Os trabalhos de Paulo Meira nos últimos sete anos depuram uma sofisticada operação de construção de beleza por meio do bizarro e do inusitado numa atmosfera de sonho. Mais recentemente vemos este intuito se apurar pela constante aparição de personagens ou atmosferas do circo. Por vezes, enxergamos a apropriação leve de uma narrativa aberta do videogame.

O percurso do personagem vendado é tortuoso e arriscado. A direção é dada por uma palhaça (figura universal, que segundo o artista representa a condição máxima do artista²) que repassa indicações de maneira ríspida e impaciente. Apesar das sabotagens e sarcasmo da guia, o homem vendado atende a seus comandos (talvez este seja a única escolha que lhe resta) e atravessa cambaleante as correntezas e obstáculos da cachoeira, a sinuosidade da estrada, as armadilhas do bosque, os percalços do castelo, os perigos do túnel e a tirania do abismo. Os cursos que parecem capacitá-lo com tanto destemor versam sobre a possibilidade de lidar com o que escapa dos padrões. Os certificados atestam que viver é uma aprendizado sem ensino.

As etapas de superação do homem vendado são entrecruzadas por um jogo de, literalmente, quebra-cabeças. Dezenas de cabeças de barro vendadas, à imagem e semelhança do artista, alinham-se à espera de serem atingidas. Novamente sob a sarcástica orientação da palhaça, que dita o itinerário em italiano, o homem vendado alcança gradativamente todas as cabeças. Não sem antes tropeçar, se chocar contra as cabeças, errar as tacadas, num jogo tenso de precisão e imprecisão. Já ao final do percurso o enfoque recai sobre cabeças individuais que ao serem quebradas libertam passarinhos³. Os riscos e a tensão nos certificam de que a arte de viver realmente passa pelo desapego às regras e por um profundo comprometimento com a poesia como via de acesso ao mundo.

 

Texto: Cristiana Tejo

1 Termo cunhado por Rosalind Krauss para conceituar o elastecimento da categoria da escultura nos anos 1970

2 Entrevista concedida pelo artista ao 7º prêmio Sergio Motta de Arte e Tecnologia

3 Uma referência direta a trabalhos anteriores de  Paulo Meira em que pássaros brotam da boca

Terça a sexta: 10 às 19h
Sábado: 11 às 17h

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